UTILIZAÇÃO DA C.I.F. PARA A ELEGIBILIDADE DE N.E.E. SERÁ FACTOR DE DISCRIMINAÇÃO, PONDO EM CAUSA A ESCOLA INCLUSIVA

PARA POUPAR DINHEIRO!!
ME impõe redução drástica no número de alunos com NEE

que serão apoiados pela Educação Especial

Mário Nogueira, Dr. Luís Borges, Dr. José Boavida

Matos Almeida (APD), Manuel Rodrigues e Mário Nogueira (SPRC),
Dr Luís Borges, Dr. Boavida

 

"As crianças vão deixar de ser apoiadas nas suas avenidas de aprendizagem, 
para serem apoiadas nas suas incapacidades. É uma mudança sem senso!"

Dr. Luís Borges, Conf. Imprensa SPRC, Coimbra, 24 de Junho de 2008

 

O Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, quis aproveitar o Encontro sobre Educação Especial do passado dia 7 de Junho, na FIL, em Lisboa, para, perante os mil e setecentos participantes, anunciar, solenemente, que “em 2013 teremos em Portugal uma escola verdadeiramente inclusiva”, certamente, na (vã) tentativa de desmentir a denúncia que, na véspera, a FENPROF fizera, alertando para as perigosas medidas que o ME/Governo está a tomar, afastando dos apoios da Educação Especial cerca de 60% dos alunos com NEE.

A resposta, teve-a Valter Lemos, no próprio Encontro, numa vibrante e prologada gargalhada dos participantes e que, provavelmente, só ele não consegue assumir como inequívoca condenação da política educativa do seu Ministério.

No levantamento de dados que, na Região Centro, o SPRC vem efectuando confirma-se o pior dos cenários: os cortes serão, efectivamente, drásticos e, mantendo-se a actual política educativa, em 2013 a escola portuguesa será menos inclusiva.

Com a publicação de um novo diploma legal para a área da Educação Especial – Decreto-Lei n.º 3/2008, de 7 de Janeiro, com a alteração introduzida pela Lei 21/2008, de 12 de Maio – foram introduzidas profundas alterações nesta área educativa, das quais, como oportunamente o SPRC/FENPROF denunciou, uma das mais graves é a utilização da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (vulgarmente designada por CIF) para decisão sobre a elegibilidade de alunos referenciados com necessidades educativas especiais (NEE) para obterem ou manterem apoios especializados a nível da Educação Especial. A adopção da CIF para este efeito só pode ter um objectivo: afastar milhares de crianças e jovens das medidas de apoio da Educação Especial e, desta forma, reduzir drasticamente o número de professores no sistema, neste caso, os de Educação Especial.

A fúria economicista do Governo, porém, vai tão longe que o Decreto-Lei publicado em Janeiro retirou às escolas a possibilidade, prevista no Decreto-Lei n.º 319/91 (entretanto revogado), de reduzirem para 20 o número de alunos das turmas com crianças ou jovens com NEE, não podendo estes serem mais do que dois por turma.

CORTES JÁ CONHECIDOS, NA REGIÃO CENTRO,
CONFIRMAM PREOCUPAÇÕES E DENÚNCIA DO SPRC E DA FENPROF

Entretanto, na Região Centro, a Direcção Regional de Educação já iniciou o trabalho no terreno com a deslocação das “equipas de monitorização” às escolas. Os resultados já conhecidos, ilustram o que antes se afirmou sobre a dimensão dos cortes pela utilização da CIF. Vejamos alguns exemplos:


Só nestes 37 Agrupamentos de Escolas, em que já se conhecem os cortes impostos, verifica-se uma redução de 57,3%, que deixa 1120 alunos com NEE, num total de 1952, sem direito a apoio especializado.

PROJECTOS DE APOIO À INCLUSÃO POSTOS EM CAUSA,
NA REGIÃO CENTRO, PELA POLÍTICA ECONOMICISTA DO ME.


Na Região Centro, têm vindo a funcionar, já há alguns anos, experiências inovadoras de apoio à inclusão, ao abrigo de protocolos de cooperação estabelecidos entre o ME e algumas instituições de apoio às pessoas com deficiência, que permitiram manter serviços especializados de apoio à inclusão nas escolas públicas.

Agora, o ME prepara-se para deixar de financiar as Auxiliares Pedagógicas destes projectos com a alegação de que as escolas têm auxiliares de acção educativa suficientes. Ora, tal não corresponde à verdade e só se pode explicar pela fúria economicista do Governo, neste caso com expressão muito negativa na Educação. Ainda durante este ano o SPRC se viu na necessidade de denunciar a falta de auxiliares de acção educativa para apoiar/acompanhar muitos dos alunos com NEE e, por outro lado, é de todos conhecido o sistemático recurso do ME a tarefeiras para colmatar algumas destas necessidades mais prementes.

Por outro lado, ainda, o não financiamento destas Auxiliares levará ao encerramento de salas de TVA (Transição para a Vida Activa) e salas polivalentes.

A POLÍTICA DO GOVERNO PARA ESTA ÁREA ABRE PORTAS AO NEGÓCIO DOS PRIVADOS

À custa destas decisões políticas do Governo e das medidas que as concretizam, abrem-se portas para negócios que não deveriam existir. Em Coimbra, por exemplo, já está a ser distribuído a pais e encarregados de educação um folheto em que se informa que abrirá um novo serviço – privado, claro – que dará apoio a crianças que não tendo qualquer deficit cognitivo, nem lesão sensorial ou neurológica, nem problema sociais ou familiares graves continua, apesar disso – acrescentam –, a ter problemas de aprendizagem.

Esse apoio, informam, será realizado através de psicólogos, professores, terapeutas da fala, técnicos de psicomotricidade, oftalmologistas, otorrinolaringologistas, fisiatras, posturologistas, médicos de oclusão e nutricionistas.

Informam, ainda, os pais que em Setembro a escola já terá definidos os apoios distribuídos, deixando implícito que os seus filhos ficarão excluídos, portanto, acrescentam, é importante começar já a pensar em preparar o apoio para a criança, em referência às que apresentam situações como as anteriormente descritas.

Quem paga? Claro está, os pais, pois o ME/Governo está a destruir o carácter inclusivo da Escola Pública e não lhes restarão alternativas públicas. O SPRC/FENPROF repudia esta atitude ministerial que não tem em conta direitos essenciais de todas as crianças e jovens, que deverão ser reconhecidos e respeitados.

O SPRC/FENPROF CONTINUARÁ A LUTAR POR UMA ESCOLA VERDADEIRAMENTE INCLUSIVA


O SPRC apela à resistência dos professores à aplicação da CIF, autêntica arma de arremesso contra a escola inclusiva e declara-se disponível para mobilizar os pais e encarregados de educação contra estas medidas de autêntica liquidação de um pilar fundamental da escola pública em Portugal.

O SPRC que, a seu convite, tem nesta Conferência de Imprensa a qualificada participação de médicos e de um representante da APD - Associação Portuguesa de Deficientes apela, igualmente, aos técnicos de saúde envolvidos neste processo, a que se recusem a dar o seu aval a medidas que mais não visam que afastar milhares de alunos dos apoios da Educação especial

Finalmente, o SPRC empenhar-se-á, no âmbito da FENPROF, na concretização das diversas resoluções já assumidas de denúncia e combate a estas políticas do Governo/ME e de intransigente defesa da escola inclusiva. O SPRC irá continuar o levantamento de dados agora iniciado, na região centro, tendo em vista a realização de novas denúncias que ajudem a pôr um ponto absolutamente final nestas políticas educativas


Coimbra, 24 de Junho de 2008

A Direcção

DECLARAÇÕES DOS CONVIDADOS DO SPRC
NESTA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

Dr. Luís Borges
Presidente da Sociedade Portuguesa Neuropediatria e do Colégio de Neuropediatria – ex-Director do Centro de Desenvolvimento da Criança do Hospital Pediátrico de Coimbra

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"Esta Classificação é aplicada com intuito economicista"

"A classificação CIF é abusiva porque é para adultos e com intuitos de saúde e funcionalidade, mas não de Educação"

"É uma classificação que os técnicos não conhecem e que os médicos não utilizam"

"É tão complexa que não vejo como é que alguma vez possa ser utilizada em Educação"

"Só se vai usar para reduzir o número de apoios, para poupar"

"Há crianças que tiveram apoio durante 6 - 7 anos e que agora vão perdê-lo"

"Quando se esperava uma melhoria, acompanhando o que há de melhor no mundo, faz-se uma alteração sem ouvir ninguém, sem consultar ninguém, passando a utilizar-se outra classificação que, ainda por cima, não serve"

"As crianças vão deixar de ser apoiadas nas suas avenidas de aprendizagem, para serem apoiadas nas suas incapacidades. É uma mudança sem senso!"

Dr. Boavida
Centro de Desenvolvimento da Criança do Hospital Pediátrico de Coimbra

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"Quem trabalha num Centro de Desenvolvimento da Criança, como eu,  sente o desespero dos pais e vive atolado em relatórios e numa imensidão de check lists"

"Esta classificação não tem qualquer relevância para fins educativos, pois não foi construída para esse fim"

"Para que esta intenção do Governo pudesse vir a ser de alguma forma utilizada, para a prática da Educação, só poderia acontecer depois de um longo e aprofundado processo de discussão."

"A aplicação da CIF, neste contexto, é de duvidosa dimensão ética"

Matos de Almeida
Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Deficientes

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"Não prescindimos de uma educação inclusiva nas áreas de residência  das crianças e jovens alunos"

"As escolas de referência vão ser guetos educativos, com turmas de cegos, com turmas de surdos… etc"

"Com a aplicação desta classificação pretende-se regressar atrás, a um conceito médico de deficiência e não aprofundar aquele era um avanço civilizacional — o conceito social de deficiência"

"Tudo vai contra a Declaração de Salamanca e a Convenção das Nações Unidas para a Igualdade e a Pessoa com Deficiência"