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NOVAS E VELHAS GESTÕES

Jerónimo Barroso, dirigente do SPRC, aposentado, ex-membro de órgãos de gestão


Estava tranquilamente sentado nos meus aposentos, local onde é suposto estarem os reformados, quando recebi uma chamada de uma colega do SPRC. Queria fazer-me um pedido. Quem como eu anda na vida sindical vai para quarenta anos, sabe bem o que significa pedido em dialeto sindical.


Enquanto a colega elogiava as minhas “escritorias”, desconfiado, fui calculando mentalmente o que poderia querer. Talvez uma recomendação sobre algum comprimido, um conselho sobre o seguro de saúde, uma informação sobre a ADSE, que cada vez nos desapoia mais, ou pretendia apenas uma explicação sobre o cálculo de pensões e dos seus cortes travestidos de combate à inflação? Na melhor das hipóteses talvez me quisesse pedir para ajudar a organizar um daqueles passeios que aqui em Castelo Branco temos feito com enorme êxito, para inveja dos outros distritos.

Falhei o cálculo. Afinal o assunto não tinha a ver com comprimidos, receitas médicas, pensões ou planos para passeios. Queria que eu escrevesse para o RCI um artigo sobre Gestão Escolar. Da antiga, da nova e da minha experiência nos muitos anos que andei a presumir que era gestor.

O diálogo que se seguiu foi de um a esquivar-se e de outra a insistir. “Eh pá tenho andado com pouca inspiração, nem para a ADSE escrevo a enviar papéis, quanto mais estar a escrever artigos.” Do outro lado, como boa sindicalista, a colega insistia, teimava, voltava a insistir, reteimava, parecendo munida de tantos argumentos, quantos os nãos que ia recebendo. A qualidade e quantidade das munições argumentativas levaram-me à rendição. Condicional, mas rendição. Está bem, vou pensar.

No dia seguinte telefonei eu. “Vou aceitar, mas não vou teorizar sobre o tema, que isso haverá muita gente para o fazer melhor do que eu, vou apenas fazer uma viagem pelas “gestões” presentes e passadas. Melhor ainda, levarei apenas os leitores num pequeno passeio pelos novos e antigos modelos que conheci por dentro e agora por fora.

O primeiro modelo que conheci, ou se quiserem vivi, utilizava a pedagogia da chapada, que tive oportunidade de provar pelo menos uma vez, e tratava os professores vários degraus abaixo do admissível, para não dizer cão. Os contratos, se os havia, eram temporários, os salários de miséria, as férias existiam, mas não eram pagas e quem ousasse falar mal da coisa ainda arriscava passar o Verão à “sombra”.

Com o 25 de Abril demitiram-se reitores, as escolas entraram em auto gestão e de forma já mais “ordeira”, apareceram as famosas comissões de gestão. Foi um tempo que só conheci à posteriori, pelas leituras que fiz e pelas histórias que ouvi.

Já professor fui conhecendo vários modelos. De gestão, mas também outros. Inicialmente os segundos interessavam-me mais que os primeiros, mas rapidamente o meu temperamento obrigou a estar mais preocupado com o que me rodeava profissionalmente. Por essa altura nasceria também uma organização chamada SPRC. Obviamente sindicalizei-me e quase sem dar por isso fui promovido a delegado sindical.

Era o tempo da massificação escolar, da sobrelotação das escolas, de novos programas, de experiências pedagógicas e de todos os sonhos do mundo.

Os gestores escolares saltavam do meio dos seus pares para integrar os conselhos diretivos, que depois foram executivos e eu, também saltei. Por razões que não vêm ao caso, fui convidado para substituir um colega que tinha saído da escola, já naquele tempo os professores tinham a mania de não parar quietos e de andar a percorrer o país de um lado para o outro. Manias. Aceitei. Um pouco a medo, mas aceitei.

O boom das construções escolares premiou a localidade onde estava colocado com uma escola novinha em folha e com a escola nova veio também uma Comissão Instaladora e a minha carreira de gestor foi bruscamente interrompida.

Terá sido com estas e a pretexto delas, que se deu o primeiro impulso pós 25 de Abril, para a pomposamente chamada tutela, começar a nomear gente para as integrar. E a tutela gostou! Aquela gente, recrutada no seio do partido que governava, eram de confiança e portavam-se bem, não fazendo nada sem ordem da “tutela”. Era um bom modelo! Eu chamo-lhe modelo telefonista. Não decidiam nada sem telefonar a perguntar como se devia fazer. Uma ordem, mesmo que dada pela porteira da direção regional, era uma ordem.

Nesses tempos, o 1º Ciclo e o Pré-escolar navegavam à vista. O Diretor Escolar, uma espécie de imperador romano, ditava as ordens administrativas enquanto os inspetores apareciam de vez em quando para se certificarem se nada saía da “ordem” e ver se o rumo pedagógico singrava de acordo com as diretivas superiormente emanadas. Conta a lenda que alguns faziam esperas para verificar se os professores chegavam atrasados. As escolas, a que muitos ainda chamam primárias, viviam pacatamente equipadas com carteiras, giz e quadro negro de ardósia. Materiais de apoio não havia, ou se havia eram alguns mapas sobrantes do antigamente e uma ou outra caixa métrica. Valia o profissionalismo dos professores e a entre ajuda dos colegas, exceto, claro, quando as escolas eram de lugar único. Nestas o isolamento era total, agravado pelo facto de as escolas, especialmente nas aldeias, terem sido construídas longe dos aglomerados populacionais e normalmente num local alto. Tenho-me interrogado muitas vezes, quando passo por edifícios que em tempos foram escolas, que motivo levaria os responsáveis a construi-las num local ermo e cimeiro.

Retomando a ordem das coisas, a Comissão Instaladora findou o seu prazo de vida. Era tempo da gestão democrática voltar a impor-se. Na escola, das chamadas de passagem, com um corpo docente que mudava todos os anos, não houve professores que se quisessem organizar para fazer uma lista. Foi convocada uma RGP, sigla de uma coisa chamada Reunião Geral de Professores, que, por estranho que pareça, era um órgão com poder para tomar decisões. Um desses poderes consistia em escolher o Presidente do Conselho Diretivo. A memória não permite lembrar a razão da minha ausência nessa reunião, permite-me apenas recordar que estava pouco preocupado com o que nela se passaria, pelo menos no que à minha pessoa respeitava. Já noite, um colega a quem tinha pedido para me ligar para informar sobre quem tinha recaído a escolha, informou-me laconicamente: Olha foste tu!

Passei a acumular com o cargo de dirigente sindical. Foram anos, talvez dez, a viver nesta dualidade aparentemente contraditória. Aparente porque uma completava a outra. Contraditória porque aos olhos de muita gente ser presidente de um órgão de gestão era incompatível com a condição de pertencer a outro órgão que defendia os interesses dos professores.

O cansaço das deslocações levou-me a regressar à minha escola de origem onde era efetivo há alguns anos. A dificuldade de adaptação e a abertura de uma escola nova em Castelo Branco levaram-me a mudar. Pela frente iria ter de novo uma Comissão Instaladora. Desta vez, os seus membros, talvez inspirados pelo cavaquismo, adotaram uma política de quer, posso e mando, completamente contrária à vontade dos professores, funcionários e até dos pais, que, por estarem numa escola nova estavam motivados, cheios de vontade de construir algo de novo e diferente. Foram dois anos de luta desigual. De um lado a comunidade escolar, com os professores à cabeça, do outro, a Comissão Instaladora, o CAE, a DREC, o Governo, a Câmara Municipal, todos do mesmo partido e até uma espécie de sindicato, conhecido por milhentas vezes estar mais ao lado do poder do que na luta dos professores.

Com o mandato a chegar ao fim, os professores empurram-me de novo para encabeçar uma lista candidata ao Conselho Executivo. Seria o regresso da Gestão Democrática e da esperança de naquela escola se construir algo de novo, que estar em local construído recentemente pouco de novo trazia para além do conforto.

Tudo encaminhado, os colegas para trabalhar comigo estavam escolhidos, também eles pelos professores, restava apenas que os instaladores convocassem as eleições, quando uma manhã ao chegar à escola no sítio da convocatória eleitoral, encontramos um aviso a informar que o mandato da CI tinha sido renovado por mais um ano, dado que os pressupostos para que tinham sido nomeados ainda não tinham sido atingidos.

A revolta estava instalada. Poucas vezes se viram professores e funcionários (estes um pouco a medo, que a prepotência era muita) tão indignados. Marcamos uma reunião para o fim das aulas, desta vez sem pedir sala nem autorização, nem querer saber do que aquela gente pensaria. Escrevemos uma reclamação para a DREC, com conhecimento a toda a gente de quem nos lembramos: PR, Governo, DREC, e, claro, para o SPRC. O Mário Nogueira, naquele tempo coordenador do Sindicato, pediu de imediato uma reunião à Diretora Regional que, espantada por em Castelo Branco haver uns pacóvios capazes de contestar uma decisão doutamente tomada, mas de uma ilegalidade de todo o tamanho, não teve outro remédio senão reverter a situação e dar ordens para que se convocassem eleições.

Ganhamos. Os instaladores nem tiveram coragem de concorrer.

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